Em um bar, numa grande capital, em algum lugar do mundo:
“Sabe, não reclamo do meu trabalho. É um trabalho, ele precisa ser feito e,
você entende o que dizem: alguém precisa fazer, não é?
Outro dia, um homem estava chorando quando fui até ele. O cara era a bola
da vez, um tipo grandão, sabe? Coisa de quase dois metros de altura, forte,
músculos demais eu diria. Mas chorava, chorava muito. Encolhido em um canto, você
nunca diria que ele seria capaz de chorar até soluçar. Ou de quebrar a cabeça de
alguém com um pedaço de madeira. Vai entender...
- Não, não... Ele dizia. Implorava até...
Não posso ceder às tentações. Faz parte do negócio, não se envolver
emocionalmente. Mas eu gosto das histórias. Gosto de verdade.
- Tenho uma filha para criar, por favor...
- Tenho que cuidar da minha mãe, não faça isso...
- Tenho de juntar esse dinheiro, é para minha casa...
Mas os melhores são os negociadores. Eles são impagáveis.
- Sabe, podemos negociar...
- Que tal se eu te oferecesse algo...
- Tenho certeza que podemos nos entender...
E a melhor de todas.
- QUANTO você quer?
Não é questão de cobrar, de pedir coisas. Como disse, é um trabalho. Depois
que você acertou o que há de ser feito, não dá pra reclamar. Não se volta na
palavra. O combinado não é caro, pelo menos é o que dizem. Para mim, serve.
Afinal, estou no ramo há bastante tempo...
Admito. Algumas vezes, bem poucas é verdade, me permito certos
caprichos. Eu meio que adio a execução do contrato, sabe. Não faz muita diferença
e, para ser bem sincera, ninguém se importa.
Desde que eu continue fazendo o combinado, cumprindo minha parte, desde
que continue fazendo o que preciso fazer, com quem preciso fazer, ninguém se
importa. E, a bem da verdade, quem vai questionar? Sou muito boa no que faço,
MUITO mesmo. Acho improvável alguém tentar me substituir.
“Sabe, não reclamo do meu trabalho. É um trabalho, ele precisa ser feito e,
você entende o que dizem: alguém precisa fazer, não é?
Outro dia, um homem estava chorando quando fui até ele. O cara era a bola
da vez, um tipo grandão, sabe? Coisa de quase dois metros de altura, forte,
músculos demais eu diria. Mas chorava, chorava muito. Encolhido em um canto, você
nunca diria que ele seria capaz de chorar até soluçar. Ou de quebrar a cabeça de
alguém com um pedaço de madeira. Vai entender...
- Não, não... Ele dizia. Implorava até...
Não posso ceder às tentações. Faz parte do negócio, não se envolver
emocionalmente. Mas eu gosto das histórias. Gosto de verdade.
- Tenho uma filha para criar, por favor...
- Tenho que cuidar da minha mãe, não faça isso...
- Tenho de juntar esse dinheiro, é para minha casa...
Mas os melhores são os negociadores. Eles são impagáveis.
- Sabe, podemos negociar...
- Que tal se eu te oferecesse algo...
- Tenho certeza que podemos nos entender...
E a melhor de todas.
- QUANTO você quer?
Não é questão de cobrar, de pedir coisas. Como disse, é um trabalho. Depois
que você acertou o que há de ser feito, não dá pra reclamar. Não se volta na
palavra. O combinado não é caro, pelo menos é o que dizem. Para mim, serve.
Afinal, estou no ramo há bastante tempo...
Admito. Algumas vezes, bem poucas é verdade, me permito certos
caprichos. Eu meio que adio a execução do contrato, sabe. Não faz muita diferença
e, para ser bem sincera, ninguém se importa.
Desde que eu continue fazendo o combinado, cumprindo minha parte, desde
que continue fazendo o que preciso fazer, com quem preciso fazer, ninguém se
importa. E, a bem da verdade, quem vai questionar? Sou muito boa no que faço,
MUITO mesmo. Acho improvável alguém tentar me substituir.
Ah, não me olhe assim... Já me disseram que ninguém é insubstituível, mas
tenho cá minhas dúvidas. Acredite, não é o caso. Quando se faz algo muito, mas
muito, mas muito bem mesmo, é difícil conseguir que outros façam tão bem quanto
você. Mas entendo esse seu olhar... Entendo sim... De verdade...
Sei que sempre existe a concorrência, que praticamente criam lendas, mitos,
até “deuses”, para tentar substituir alguém que é muito bom no ramo. Mas, sejamos
sinceros, meu trabalho não é nada de especial e não tem muita gente que gosta de
se meter a fazer a parte desagradável, não é? Colher os frutos e apreciá-los é para
todos, mas mexer no fertilizante, adubar a terra... ah... isso não... e, bem, de certa
forma, é o que faço.
Eu mantenho as coisas limpas, mantenho tudo em ordem. Alguém precisa
compreender isso. Não faço nada além do que preciso fazer. Não trabalho com
“casualidades”, é o termo que usam hoje em dia, não é? E tenho uma vantagem, eu
não erro. Nem uma vez. Nunca.
"Ninguém pode fugir ao amor e à morte". Foi Públio Siro quem disse isso.
Um sujeito engraçado, isso ele era. Sempre com umas idéias diferentes, mas
todos eles – os filósofos – são assim, não é mesmo? Ah, você não sabe de quem
estou falando? Tudo bem... Não faz diferença mesmo...
Bom, ele até que tinha razão em uma coisa, não sei do amor, mas da morte,
ah... dessa eu entendo e, realmente, ninguém pode fugir. Ninguém precisa reclamar
disso, afinal é assim para todo mundo não é? Para tudo, aliás.
Como eu disse, eu não reclamo do meu trabalho. Eu só faço.
Não senhor; não quero outro Martini. Na verdade, já está na hora de ir. De
irmos, quero dizer... [...] Como assim? Qual o motivo do susto? Não entendeu o que?
Não sabe quem eu sou? Não reconhece meu sorriso? Sério mesmo? Não me
diga que não percebeu até agora... Vamos lá... Tente outra vez...
Sim, sou eu, a Morte. A única. Produto legítimo. Agora faça um favor a nós
dois: sem dramas, ok? E não tente me comprar, você já sabe o que penso disso...
Veja... Não é que eu esteja mal humorada, não tem nada a ver com isso...
Não mesmo... Agora, se não se importa, vamos andando que tenho outras pessoas
para visitar, pode ser? Ah! Não leve o ataque cardíaco a mal, não é nada pessoal,
sabe como é... e, novamente, obrigada pelo Martini. Eu mataria por um desses.”
tenho cá minhas dúvidas. Acredite, não é o caso. Quando se faz algo muito, mas
muito, mas muito bem mesmo, é difícil conseguir que outros façam tão bem quanto
você. Mas entendo esse seu olhar... Entendo sim... De verdade...
Sei que sempre existe a concorrência, que praticamente criam lendas, mitos,
até “deuses”, para tentar substituir alguém que é muito bom no ramo. Mas, sejamos
sinceros, meu trabalho não é nada de especial e não tem muita gente que gosta de
se meter a fazer a parte desagradável, não é? Colher os frutos e apreciá-los é para
todos, mas mexer no fertilizante, adubar a terra... ah... isso não... e, bem, de certa
forma, é o que faço.
Eu mantenho as coisas limpas, mantenho tudo em ordem. Alguém precisa
compreender isso. Não faço nada além do que preciso fazer. Não trabalho com
“casualidades”, é o termo que usam hoje em dia, não é? E tenho uma vantagem, eu
não erro. Nem uma vez. Nunca.
"Ninguém pode fugir ao amor e à morte". Foi Públio Siro quem disse isso.
Um sujeito engraçado, isso ele era. Sempre com umas idéias diferentes, mas
todos eles – os filósofos – são assim, não é mesmo? Ah, você não sabe de quem
estou falando? Tudo bem... Não faz diferença mesmo...
Bom, ele até que tinha razão em uma coisa, não sei do amor, mas da morte,
ah... dessa eu entendo e, realmente, ninguém pode fugir. Ninguém precisa reclamar
disso, afinal é assim para todo mundo não é? Para tudo, aliás.
Como eu disse, eu não reclamo do meu trabalho. Eu só faço.
Não senhor; não quero outro Martini. Na verdade, já está na hora de ir. De
irmos, quero dizer... [...] Como assim? Qual o motivo do susto? Não entendeu o que?
Não sabe quem eu sou? Não reconhece meu sorriso? Sério mesmo? Não me
diga que não percebeu até agora... Vamos lá... Tente outra vez...
Sim, sou eu, a Morte. A única. Produto legítimo. Agora faça um favor a nós
dois: sem dramas, ok? E não tente me comprar, você já sabe o que penso disso...
Veja... Não é que eu esteja mal humorada, não tem nada a ver com isso...
Não mesmo... Agora, se não se importa, vamos andando que tenho outras pessoas
para visitar, pode ser? Ah! Não leve o ataque cardíaco a mal, não é nada pessoal,
sabe como é... e, novamente, obrigada pelo Martini. Eu mataria por um desses.”

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